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Jorge Tarquini, 42  anos,  se graduou em jornalismo  pela   UMESP na turma de 1985. Em janeiro do ano seguinte, ingressou na Editora Abril pe­lo Curso Abril de Jornalismo. Em 16 anos na editora, atuou como repórter, editor, redator-chefe e colunista de revistas como VIP, teve passagens por diversas publicações, chegando à dire­ção da Revista Quatro Rodas em 1993. Em  1999, transferiu-se para a direção da revista Terra.tc "Jorge Tarquini, 42  anos,  se graduou em jornalismo  pela   UMESP na turma de 1985. Em janeiro do ano seguinte, ingressou na Editora Abril pe­lo Curso Abril de Jornalismo. Em 16 anos na editora, atuou como repórter, editor, redator-chefe e colunista de revistas como VIP, teve passagens por diversas publicações, chegando à dire­ção da Revista Quatro Rodas em 1993. Em  1999, transferiu-se para a direção da revista Terra."

Após uma passagem como aluno do Professional Publishing Course da Uni­­versidade de Stanford, Califórnia, em 2001 desligou-se da Abril, passando à condição de consultor dentro da própria editora. Em 2003, após assi­nar como roteirista a primeira temporada do programa Oi Brasil, da TV  Bandei­rantes, abriu sua empresa, a Scribas, especializada em produção e terceirização de conteúdo editorial e em veí­culos customizados. Entre os clientes da Scribas estão o Banco do Brasil, para o qual escreveu o livro Rastro Digital - A aventura da informática no Brasil, em parceria com a Panda Books, a Fede­ração Brasileira da Indús­tria Far­macêutica, para a qual fez o reposicionamento da  revista Indústria Farmacêutica, a Rilisa e o Citibank, entre ou­tros. Tarquini lecionou Jornalismo Opinativo no curso de Comunicação da Cásper Líbero e leciona Crítica da Mídia na UMESP.tc "Após uma passagem como aluno do Professional Publishing Course da Uni­­versidade de Stanford, Califórnia, em 2001 desligou-se da Abril, passando à condição de consultor dentro da própria editora. Em 2003, após assi­nar como roteirista a primeira temporada do programa Oi Brasil, da TV  Bandei­rantes, abriu sua empresa, a Scribas, especializada em produção e terceirização de conteúdo editorial e em veí­culos customizados. Entre os clientes da Scribas estão o Banco do Brasil, para o qual escreveu o livro Rastro Digital - A aventura da informática no Brasil, em parceria com a Panda Books, a Fede­ração Brasileira da Indús­tria Far­macêutica, para a qual fez o reposicionamento da  revista Indústria Farmacêutica, a Rilisa e o Citibank, entre ou­tros. Tarquini lecionou Jornalismo Opinativo no curso de Comunicação da Cásper Líbero e leciona Crítica da Mídia na UMESP."

Recentemente, assinou a co-autoria do best-seller O DOCE VENENO DO ESCORPIÃO.

Dando continuidade à entrevista Da edição anterior, na qual Editor&Arte conversou com Júlio Veríssimo, trazemos agora um papo com Jorge Tarquini. Também professor da faculdade de jornalismo da Universidade Metodista e experiente na área impressa, Tarquini relata sua vivência no mercado de revistas e abre o jogo sobre questões como a obrigatoriedade do diploma, os avanços tecnológicos e o que esperar dos formandos em comunicação.tc "Dando continuidade à entrevista da edição 33, na qual Editor&Arte conversou com Júlio Veríssimo, trazemos agora um papo com Jorge Tarquini. Também professor da faculdade de jornalismo da Universidade Metodista e experiente na área impressa, Tarquini relata sua vivência no mercado de revistas e abre o jogo sobre questões como a obrigatoriedade do diploma, os avanços tecnológicos e o que esperar dos formandos em comunicação.


 

Editor&Arte - O que veio primeiro: dar aulas ou trabalhar dar aulas ou trabalhar como jornalista?

Jorge Tarquini - Comecei como jornalista. Me formei em 1985 na Universidade Metodista, fui para o curso Abril daquele mesmo ano e lá na editora Abril fiquei 16 anos. "Jorge Tarquini - Comecei como jornalista. Me formei em 1985 na Universidade Metodista, fui para o curso Abril daquele mesmo ano e lá na editora Abril fiquei 16 anos."

Na Universidade Metodista eu comecei a dar aula em 1995. Dei aula por dois anos, me licenciei porque não estava conseguindo levar e voltei em 2002. "Na Universidade Metodista eu comecei a dar aula em 1995. Dei aula por dois anos, me licenciei porque não estava conseguindo levar e voltei em 2002."

Por que resolveu entrar para o mundo acadêmico se você já estava numa situação estável como jornalista?

Eu sentia necessidade de dar de volta alguma coisa da minha experiência de mercado, eu gostaria de ser o professor que eu não tive, ou seja, alguém que está no mercado, alguém que vivencia no dia-a-dia aquilo que está falando.

Você acha que faltava isso na Universidade, que era tudo muito teórico?

Não sei se era tão teórico, mas eu acho que a universidade tem o compromisso de atrair profissionais, justamente para criar o equilíbrio entre o mundo acadêmico e o profissional. Esse equilíbrio, eu acho que ainda está um pouco distante de acontecer.

O que você vê nas universidades é que a maioria dos professores são só do meio acadêmico mesmo?

Eles podem até ter experiência de mercado, porém eu acho que está acontecendo uma transformação dos cursos de jornalismo, que é uma área que está se revolucionando muito rápido. Quando eu era aluno, a tendência era você se especializar. Hoje você pode até acabar se especializando ao longo da sua vida profissional, mas você não pode sair da faculdade como um jornalista só de rádio, ou só de TV. Você tem que estar antenado com absolutamente tudo. Não existe você se denominar pauteiro, past up, isso já morreu A denominação é jornalista, completo e com atribuições que sequer fazem parte da formação do jornalista, como cotar sua matéria. Para vender sua matéria para o editor, convencê-lo a executar, você tem que levar os preços, saber quanto custa para viajar, para fotografar...Hoje jornalista que não souber cotar a própria matéria, não consegue aprovar a pauta na reunião.

Por que trabalhar com jornalismo impresso e não com outros meios?

Eu já tinha passado por rádio e gostava muito, assim como impresso. Com TV eu nunca tive aquela vontade, aquele glamour de trabalhar em TV. Em 2003 eu fui chamado pela Bandeirantes para fazer um programa, fui, adorei fazer, mas cheguei a uma conclusão depois da primeira temporada: TV não é a minha praia. Faço direitinho, mas não é algo que eu faça com o mesmo prazer com que eu faço impresso.

E que experiência foi essa em rádio?

Eu fazia a produção para alguns programas da Rádio USP enquanto estava na faculdade, cheguei a fazer locução, adorava redigir textos pra rádio.tc "Eu fazia a produção para alguns programas da Rádio USP enquanto estava na faculdade, cheguei a fazer locução, adorava redigir textos pra rádio."

Como é sua rotina tendo que dividir o tempo entre as aulas e o mercado editorial?

Eu brinco que eu tenho uma quádrupla jornada de trabalho. Eu dedico um dia por semana pra universidade e é uma coisa que é cansativa fisicamente, até pela faculdade ser em São Bernardo, mas é algo que me reabastece. Os outros quatro dias úteis da semana eu divido entre o trabalho na minha empresa, Scribas, e os trabalhos que eu faço como roteirista e como autor. O Scribas é meu escritório que cuida de comunicação coorporativa, é uma consultoria de comunicação empresarial e editorial e veículos customizados. Ajudamos a reposicionar marcas, elaborar projetos editoriais, esse tipo de coisa. Ano passado eu escrevi um livro para o Banco do Brasil. Nunca tinha escrito um  livro e adorei a experiência, foi uma nova carreira que se abriu. Depois surgiu o livro da Bruna Surfistinha e por conta disso várias editoras estão mandando projetos. Só que trabalhar com os livros é mais um projeto de realização pessoal mesmo que eu tenho que correr paralelamente à carreira.

Como é conciliar essas informações e exigências diferenciadas?

É complicado, é complicado....Essa questão do tempo é primordial, mas até me ajuda porque no mundo acadêmico eu falo das coisas na teoria e tenho isso fresco na cabeça na hora de colocar em prática no mercado de trabalho.

O que uma experiência acrescenta na outra?

Eu estou sempre me reciclando junto aos alunos, não tem como perder os valores de vista. Quando você dá aula, fica mais exigente, não entra no jogo do mercado, não se acomoda porque não tem como você ensinar uma coisa pela manhã e não cumpri-la de tarde. Dar aula é uma patrulha comigo mesmo. 

Até que ponto ter feito faculdade torna o formando um melhor jornalista?

As matérias de hoje em uma faculdade de jornalismo têm muito mais a função de instigar do que propriamente ensinar. Hoje você está rodeado de informações e se aprende a utilizar as ferramentas necessárias à profissão em três meses. É muito simples montar um blog, editar, divulgar informação por aí. A crise hoje em dia está justamente em formar valores, olhar crítico, em transmitir a ética da profissão, é esse o desafio das faculdades. Depende muito mais do próprio aluno ter o hábito de ler, de buscar informações por conta própria, de ser curioso, de trabalhar com as ferramentas como sites, etc. Hoje o recém-formado tem que sair da faculdade não pensando em arrumar um emprego e sim em ter um negócio. Não é preciso trabalhar em uma grande editora, em uma grande rede de TV pra se realizar profissionalmente, até porque nas grandes empresas você chega diariamente para trabalhar pensando se hoje será demitido e é muito cruel viver com esse machado pendendo sobre a sua cabeça.

Como você avalia que a matéria que leciona, em especial, contribui para a formação do futuro jornalista?

A partir do momento em que eu levo discussões reais, de coisas que estão acontecendo no mercado eu consigo dar um bom substancial de bastidores, a aula já não fica só no “eu acho, eu deixo de achar”. Eu sempre penso em levar para a aula um problema, dizer como acontece nos bastidores e a gente pensar na cadeia como um todo, como aquela informação impacta no leitor, no veículo, na fonte, no objeto retratado....Nas minhas aulas eu procuro dar um “choque de realidade” nos alunos porque na verdade não tenho o compromisso acadêmico de ensinar alguém a fazer alguma coisa específica como operar uma ilha de edição, por exemplo, não é uma coisa tão objetiva.

Você acha importante o diploma?

Para mim jornalismo seria um bom curso de especialização.tc "Para mim jornalismo seria um bom curso de especialização."

De repente você fez um curso de direito e gostaria de escrever matérias sobre o tema. Você tem uma boa formação, faz um curso de especialização de um ano e meio em jornalismo, como um MBA.

Mas eu sou contra qualquer pessoa ser jornalista. A não-necessidade do diploma não significa qualquer pessoa ser jornalista.

Apenas dominar um tema e ter um bom texto não faz de um advogado um bom jornalista. Eu também sei entender o código penal e nem por isso posso prestar concurso na OAB e receber uma carteirinha para advogar. É preciso ter muito cuidado com a imprensa porque ela tem o poder de criar e destruir mitos. O jornalismo é uma ferramenta poderosa. Hoje eu acho que o cenário geral não permite que se abra mão do diploma.

O mercado de trabalho acha?

Eu acho que pelo mercado, o diploma seria abolido, mas como o processo ainda está nessa fase de transformação, saindo da fase escravagista para a de empreendedores, o diploma, por enquanto, ainda é necessário.

Existe algum perfil de formando que o mercado não tolere? Qual?

Existem dois extremos que certamente nunca vão ter lugar no mercado. O aluno só com formação técnica, porque o que ele faz, qualquer outro que faça mais barato vai tomar o lugar dele. O outro extremo é aquele que filosofa, que teoriza tudo, que acaba indo pro mundo acadêmico porque não dá pra ficar teorizando e o jornal sair com uma página em branco, tem que ter notícia lá.

Qual seria o perfil ideal?

O perfil que o mercado quer hoje é o carregador de piano. Aquele que está no intermediário desses dois extremos e junta as qualidades de um bom teórico com as qualidades de um bom técnico e você poder largar o abacaxi que for na mão dele que ele resolve.

O mercado te contrata para você apresentar soluções muito mais do que para ficar debatendo problemas. Isso por um lado é bom individualmente para a carreira porque você amadurece e cresce muito rápido. Por outro lado é ruim não se ter mais bons profissionais sentando do seu lado e discutindo os melhores meios de se fazer uma matéria. Antes você tinha referências dentro da própria redação, o editor podia gritar que sua matéria estava uma merda, mas ele sentava com você pra discutir o que precisava ser melhorado, ele era uma referência. Hoje quem é que vai ter tempo de debater. Não se tem mais esse tipo de referência.

O que mudou no mercado de trabalho desde o início da sua carreira?

Eu acho que a mudança mais significativa foi exatamente a massificação do profissional de jornalismo. Antes os donos dos veículos davam valor para ter um Nelson Rodrigues numa redação, hoje ele provavelmente estaria desempregado e teriam dois ou três estagiários no lugar dele, produzindo mil notinhas por hora. Se você é um colunista e tem seu nome feito, ok, senão tanto faz quem está assinando e produzindo as matérias do dia-a-dia.

E no meio acadêmico o que mudou desde que você começou a dar aulas?

A faculdade passou por um momento de desmembrar, de especializar o jornalista. Agora, com a convergência das mídias ela vai ter que juntar tudo de novo porque um jornalista só vai ser completo se ele dominar todas as áreas. Antes de ser um jornalista ele é um profissional de comunicação e tem que saber até qual é a melhor tecnologia para o seu produto, para o seu veículo, saber em que vale a pena investir.

A universidade acompanha as mudanças do mercado?

Elas até têm em mente essa necessidade de mudança, de atualização, mas não estão conseguindo colocar isso em prática na velocidade necessária.

Mudou o perfil do formando?

Mudou, mudou.....Não se fala mais em pseudo-intelectuais, né? Hoje os alunos estão muito mais ligados no mercado, têm essa ansiedade em trabalhar. Na minha época não, ainda se tinha essa visão boêmia da profissão, do jornalista com um cigarro no canto da boca. Essa visão romântica se foi, até pela pressão do trabalho.

Na sua visão, qual o enfoque ideal durante a faculdade: mais teoria ou mais prática?

As duas coisas. Cada aluno entra na faculdade com um nível diferente de conhecimento. Não tem como cobrir os “buracos” de formação. Uns estudaram em bons colégios, outros em péssimos. Então, a faculdade tem que dar um nivelamento, uma base técnica comum. A partir daí começar a construir os profissionais. Não adianta você sair da faculdade apenas sabendo operar um gravador e um computador, mas também não adianta você sair sendo exemplar na ética, na visão crítica, na filosofia da profissão, com um bom texto e sem saber o que é uma notinha, um lead.

Há um consenso, que não sabemos até que ponto é mítico, de que os antigos jornalistas eram muito bons.  Se eles não fizeram faculdade para tanto, o que mudou na sociedade, nos veículos ou no jornalismo em si para que atualmente a faculdade seja obrigatória?

Hoje em dia, com a velocidade da informação, o jornalista tem meia hora pra escrever trezentas notinhas, existe uma meta de produção, não é como até a década de 1980, quando se tinha mais tempo para convencer uma fonte a falar com você, viajar para apurar uma história. Eu cheguei a pegar um pouco disso ainda, se você chegasse com uma boa pauta, o editor te dava dois meses para fazer uma matéria porque tinha gente suficiente na redação para cumprir as funções do cotidiano e você podia se dedicar a uma matéria especial, hoje isso acabou. É óbvio que os antigos jornalistas também tinham uma coisa de mais talento porque, como o jornalismo não se ensinava na escola naquela época, as pessoas usavam suas próprias referências, elas iam atrás. Todo bom jornalista era um bom leitor com absoluta certeza, existiam referências literárias, políticas. Hoje é tudo muito mastigado, o jornalista se acomodou, ele baixa todas as informações de uma agência de notícias e escolhe o que interessa, pega fotos em um banco de imagem ou recebe tudo mastigado de uma assessoria de imprensa. Não precisa mais ter um grande faro, um grande talento jornalístico. Mas também, não se mostram mais grandes histórias porque como se vai conseguir uma boa história sentado dentro de uma redação? Cada vez menos a imprensa conta boas histórias. Então não tem como comparar as redações atuais com as redações de antigamente, é outra estrutura, é outra demanda.

Você percebe, com freqüência, entre os alunos muitas decepções com a realidade da profissão?

Eu ouço muito isso e aos que me procuram para conversar o que eu digo é o seguinte: Se você chegou até aqui, termine o curso e vá fazer pós-graduação no que você quiser porque o jornalismo te dá uma boa base. Eu digo que Jornalismo e Direito são cursos que todo mundo deveria fazer porque lidam com conceitos que passam pela vida de qualquer pessoa. Mas só de o aluno estar se questionando, já é um grande passo para ele se achar. Eu tento ajudar a pensar se não há nada no jornalismo que ele goste, fotografia, por exemplo. Se o aluno concluir que aquilo realmente não é a praia dele, aí não tem muito o que fazer.

Para finalizar, você acha que os atuais formandos estão preparados para o mercado de trabalho?

Eu tenho que ser muito sincero: não é todo mundo que está preparado. Forma-se muita gente todo ano, comunicação é uma área cada vez mais procurada. Da mesma maneira que muitos médicos e muitos engenheiros não saem preparados. Seria uma ilusão acreditar que todas as pessoas saem prontas. No jornalismo eu diria que atualmente 50% dos alunos saem preparados para crescer, para se desenvolver como jornalista, a outra metade vai passar por algumas experiências até descobrir que tem um limite dentro daquela profissão e procurar outra coisa.