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A divertida arte de fotografar.
Marcos Magaldi, 56, trabalha com fotografia há mais de 30 anos. Iniciou a carreira em 1973 no fotojornalismo, quando trabalhou no Jornal da Tarde e no Estado de S. Paulo, no qual ficou até 1979. Neste ano, passou a capturar imagens para o mundo publicitário. Montou então um estúdio, onde trabalha até hoje fotografando, principalmente, produtos, relatórios anuais de empresas e retratos.
Lecionou fotojornalismo na Faculdade de Comunicações de Santos entre os anos de 74 e 76 e realizou quatro exposições individuais, sendo duas no MASP (Série sobre o Casal - 77 e Vida Privada - 78).
Membro da diretoria da ABRAFOTO (Associação Brasileira de Fotógrafos de Publicidade) desde a sua fundação, em 1985, Marcos chegou a ocupar sua presidência de 94 a 96.
Hoje, ministra workshops regularmente e desenvolve trabalhos e pesquisas pessoais, como as que resultaram Marcas na Memória e Stábiles, exposição apresentada em Curitiba, em 1996. Bastante ampliada, Marcas foi apresentada também em Porto Alegre e São Paulo em 1999.
Editor&Arte: Você fez faculdade? Qual? Fez ou ainda faz cursos de fotografia? Quais? Qual a importância da faculdade e dos cursos em sua carreira?
Magaldi: Fiz a Escola Superior de Cinema até o terceiro ano, quando ela encerrou as atividades. No próprio currículo da escola a matéria fotografia era uma das mais importantes e acabei aprendendo a trabalhar com laboratório P/B lá mesmo. O Hildo Passos, professor de fotografia da faculdade tinha um grande estúdio de fotografia comercial e, como minha primeira mulher foi trabalhar com ele, acabei acompanhando alguns trabalhos que ele fazia.
Acho que a criação de uma faculdade especialmente dedicada ao ensino da fotografia trouxe um grande impulso no conhecimento do metier. A sistematização no aprendizado, o convívio com outros alunos e o grande volume de informações que uma faculdade passa para os estudantes vem melhorando muito o nível dos fotógrafos que nela se graduam. O autodidatismo, que foi a fórmula encontrada por praticamente todos os fotógrafos da minha geração dá muito mais trabalho e, em vários casos, deixa lacunas permanentes na formação profissional.
Você é filho de um reconhecido crítico de teatro. Acha que esse viés cultural da família o influenciou a escolher ser fotógrafo ou mesmo em optar por um estilo mais artístico de foto?
Tive formação científica. Meu avô era engenheiro e diretor do Centro das Indústrias de Belo Horizonte (uma espécie de Fiesp mineira) e eu ia com ele visitar um monte de fábricas na região. Nunca acreditei na dicotomia artes/ciências. Sempre achei, e por sinal, continuo achando, que uma formação ampla só melhora a sua visão de mundo, sua maneira de encarar a realidade. Por outro lado, aprendi com meu pai a não ser complacente com meu trabalho e a não ter medo de crítica, já que ela é fundamental para o crescimento profissional. Além disto, freqüentei Bienais, teatros e museus desde criança, o que não deixa de ser um diferencial na formação de qualquer pessoa.
Em que momento e por que você decidiu fazer da fotografia a sua profissão?
Quando estava na faculdade de cinema achava que ia virar diretor, mas devido a uma série de circunstâncias, acabei indo trabalhar no jornal "O Estado de S. Paulo" e "Jornal da Tarde" em 1973 para pagar as malditas contas e acabei ficando. Bom, nesta toada já se vão mais de 30 anos!
Como foi a compra do primeiro equipamento? Qual era a marca, o modelo?
Meu primeiro equipamento com algum recurso (uma Agfa Isola) foi comprado pela minha mãe de presente de aniversário em 1959. Em 1962 ganhei minha primeira máquina reflex do meu tio Anselmo (uma Ayres Penta 35), que já dava para fazer um monte de coisas e em 1969 comprei uma Miranda Sensomat com várias objetivas, que era um equipamento razoavelmente sofisticado para a época.
Você iniciou sua carreira no fotojornalismo. Por que resolveu mudar para a fotografia publicitária?
Realmente, comecei minha carreira profissional no fotojornalismo e também lecionando na Faculdade de Comunicações de Santos. Nunca deixei totalmente o trabalho editorial, mas em 1979, quando era delegado sindical da fotografia, fui demitido do Estadão, após uma greve mal sucedida e não consegui naquela ocasião mais emprego em nenhum outro órgão de imprensa. Diante deste fato, e com meu fundo de garantia na mão, abri junto com minha segunda mulher, também fotógrafa, um estúdio de fotografia publicitária e me tornei, meio a contragosto, um pequeníssimo empresário de comunicação.
Em quais veículos mais gostou de trabalhar até hoje e qual o motivo?
Odeio o saudosismo, mas o período que trabalhei no Jornal da Tarde foi, sem sombra de dúvida, uma época gloriosa da imprensa brasileira. A diagramação criativa, as pautas inteligentes e o departamento de fotografia mais experiente que eu conheci tornaram o trabalho jornalístico uma grande escola e um grande prazer.
O que mais gosta de fotografar?
Não gosto da divisão temática que se faz da fotografia. Qualquer coisa pode ser um bom assunto e render uma boa foto. É claro que cada trabalho representa um desafio diferente. Assim, fotografar gente e conseguir extrair alguma "verdade" daquela pessoa é muito gratificante, mas, por outro lado, resolver uma situação fotograficamente difícil (como são as fotos com alguns efeitos especiais) também tem um enorme encanto. Portanto, depois de tanto tempo fotografando, não tem assunto que não me divirta.
O que considera indispensável para um fotógrafo em termos materiais e como características pessoais? O que considera dispensável?
Equipamento já foi um diferencial para fotógrafo. Hoje, não sei se faz muita diferença você ter um monte de coisa, já que a velocidade com que os novos equipamentos se tornam obsoletos é muito grande. Em muitos países, o grosso do equipamento utilizado por um fotógrafo é alugado. Aqui, por motivos culturais, cada estúdio tem sua própria "montanha" de equipamento, o que considero desperdício de dinheiro. Acho que cada fotógrafo tem que ter o básico para trabalhar naquilo que gosta, sem muitas viagens ou frescuras. O resto é apenas exibição boboca.
Você ganhou dois prêmios Esso. Em que ocasiões (com que fotografias)? O que muda na carreira depois de receber um prêmio como esse?
Desconfio um pouco de premiações. Existe muito lobby e muita pressão sobre jurados, o que provoca, em muitos casos, flagrantes injustiças. Portanto, tenho um pouco de ceticismo com relação a estas coisas. Ganhei, de qualquer forma, muitos prêmios, tanto em fotojornalismo quanto em publicidade, alguns mais meritórios que outros. O prêmio Esso é dividido em várias categorias e os que eu ganhei foram de Informação Científica (o primeiro parto Leboyer do Brasil), junto com o Marcos Faerman, e o outro em equipe por uma cobertura de um seqüestro na Rua Martinho Prado (as fotos principais eram minhas). Dizer que não se fica feliz em ganhar um prêmio é mentira deslavada, mas levar muito a sério a própria competência é sinal de babaquice.
Você foi presidente da ABRAFOTO. Qual a importância das associações para os fotógrafos e para o mercado?
Uma boa associação melhora muito a vida dos seus associados. Por exemplo: antes da ABRAFOTO, cada fotógrafo tinha um sistema de orçamento, que nem sempre funcionava a contento e era muito comum a perda de dinheiro e competitividade por conta disso. Não havia seguro de equipamentos, nem uma assessoria jurídica que facilitasse a solução de pendências entre os vários agentes envolvidos na feitura de um trabalho fotográfico etc. Por outro lado, o mercado ganhou um interlocutor de qualidade em tudo que diz respeito às questões relacionadas com fotografia, como normatização de procedimentos, contratos-padrão com fornecedores e várias outras vantagens.
Você propõe, com suas obras, um novo tipo de linguagem fotográfica. Por que essa espécie de "reconstrução da imagem"?
Desde quando comecei a fotografar, o mero registro de uma realidade pré-existente nunca bastou para mim. Mesmo quando participava de uma cobertura jornalística, sempre busquei um ângulo inusitado, um enquadramento mais elaborado, uma iluminação menos simplista. A fotografia, como qualquer linguagem, pode ser trabalhada de maneira mais consistente do que apenas o apertar um botão num "momento privilegiado". Desta forma, o trabalho de pós-produção, em laboratório ou mesmo no computador, pode gerar um discurso mais elaborado, menos elementar. A utilização de imagens recortadas e remontadas como signos isolados, além das revelações seletivas e outras técnicas, tornam o discurso visual mais ágil, menos amarrado nos limites impostos pelos sistemas tradicionais.
Seus trabalhos como fotógrafo vão além de fotografias puras e simples. Você se classifica como um artista?
Hum... a palavra "artista" nos dias de hoje se reveste de uma série de sentidos absolutamente depreciativos. Por sinal, até com razão. Não gosto nada destas classificações.
Como lida com a fotografia digital, o que acha dela? Utiliza o computador para tratar imagens com programas como o Photoshop? O que pensa sobre essa grande mudança tecnológica?
Fotografia quer dizer, em última palavra, registro da luz. Que este registro se dê sobre película ou sobre CCD não faz muita diferença no que tange à linguagem. A manipulação da imagem, por outro lado, que antes se dava de maneira mais discreta, passa hoje a fazer parte intrínseca do processo digital e isso representa uma mudança considerável em alguns aspectos da fotografia. A incorporação nos equipamentos mais modernos de praticamente todas as variáveis da linguagem fotográfica (ISO, temperatura de cor, flashes incorporados, contrastes variáveis etc) trouxe uma velocidade e uma facilidade enorme para a captação das imagens fotográficas democratizando de maneira definitiva a "função" de fotografar.
Que equipamento utiliza atualmente? Utiliza um específico para cada tipo de fotografia?
Estou usando com maior freqüência meu equipamento digital (uma Canon D20) para o tipo de trabalho que tem pintado. Uso ainda uma Mamyia 6 por 4,5 e uma Cambo View para trabalhos que necessitem correções de perspectiva ou que vão ser muito ampliados, já que a qualidade de uma chapa 4 por 5 polegadas ainda é difícil de se obter com equipamento digital comum.
Como é sua relação de trabalho com o cliente? Eles interferem muito na criação ou, se contratam um fotógrafo com um trabalho tão particular, é por já saberem que o resultado final agradará e não interferem na sua liberdade? Esse grau de interferência mudou conforme você se tornou reconhecido e premiado?
O trabalho de publicidade é, por natureza, uma foto encomendada, onde os parâmetros são definidos pela agência e pelo cliente. É claro que existe uma certa margem de manobra, mas não devemos nunca perder de vista as colocações dos diretores de arte e do próprio cliente. Há trabalhos com maior liberdade criativa, mas sou da opinião que devemos resolver bem qualquer trabalho proposto, sem muitas frescuras ou paranóias.
Já aconteceu de algum cliente te contratar para fotos comuns sem saber qual seu estilo de trabalho e quem é você? Como foi?
Com o aumento brutal da concorrência, ficamos quase sempre felicíssimos quando um cliente lembra da gente. Como no Brasil a meritocracia não é valor e as relações pessoais são bastante determinantes para o sucesso profissional, fazer fotos de qualquer natureza já é bastante prazeroso, não importando muito o que pensam do nosso estilo ou competência. Para cultivarmos o ego existem os trabalhos pessoais, as exposições.
Está com algum projeto em andamento?
Meus projetos têm sido de longa maturação. Estou começando a pensar numa nova exposição e já estou reunindo informações para realizá-la.
Existe alguma foto que não tenha feito e que sonha em fazer?
Gosto muito de viajar e de fotografar os lugares que visito. É uma forma de apropriação e fixação daquilo que eu vi, uma espécie de diário de bordo. De qualquer forma, como sou bastante distraído, não gosto de andar com máquina pendurada no pescoço para aproveitar algum momento "mágico" que porventura apareça. A fotografia, para mim, é normalmente resultado de um processo de reflexão, pouco motivado pela realidade circundante. |